Aconselhamento Psicológico na perspectiva Fenomenológica Existencial: uma introdução
As professoras doutoras Henriette T. P. Morato e Carmem T. B. Barreto e o professor André P. Nunes coordenaram esta publicação que passa a formar parte da coleção “Fundamentos de Psicologia” organizada pelos professores doutores Edwiges F. M. Silvares, Francisco Assumpção Júnior e Léia Priszkulnik.
Leia a seguir as palavras iniciais do livro escritas pela Profa. Dra. Henriette Morato.
Veja também o sumário do livro.
Aconselhamento Psicológico na perspectiva Fenomenológica Existencial: uma introdução. Coordenação Henriette T. P. Morato; Carmem L. B. T. Barreto; André P. Nunes; editores da série Edwiges F. M. Silvares, Francisco Assumpção Júnior e Léia Priszkulnik. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2009.(Fundamentos de Psicologia)
Palavras Iniciais
Historicamente o campo de Aconselhamento Psicológico (A.P.), foi uma das áreas de atuação que, juntamente ao diagnóstico psicológico e à orientação profissional, garantiu a prática profissional do psicólogo, em 1962 com a lei 4.119. Desde o seu inicio, compreendido como prática psicológica restrita à solução de problemas de ajustamento, o A.P. foi se constituindo direcionado tanto para a vertente de instituições de ensino quanto para a vertente das instituições e organizações sociais e empresariais. Nessa direção, sofreu grande influência dos processos de diagnóstico que ofereciam subsídios para a “orientação” do bom conselheiro, enquanto que a psicoterapia, ação clínica de tratamento, era exercida exclusivamente pelos médicos por excelência. A publicação, em 1942, do livro Counseling and Psychoterapy de Carl Rogers, possibilitou um deslocamento progressivo da abordagem psicométrica no processo de aconselhamento, que passou a ser centrado na pessoa do cliente e na relação cliente-conselheiro. Estavam, então, lançadas novas bases para a ação do psicólogo que, gradativamente, foi se vinculando à prática psicoterapêutica. Inicialmente, essa prática encontrava-se marcada pelo modelo médico e vinculada a aspectos técnicos e científicos, voltada para o atendimento individual dirigido às classes média e alta. Só a partir da década de oitenta, quando da inserção do psicólogo na rede pública de saúde, a ação do psicólogo passou a abarcar uma população de baixo nível sócio-econômico. As práticas psicológicas tradicionais foram gestadas em diferentes países da Europa e dos Estados Unidos, assumindo a influência da composição de forças do tecido social e cultural do país de origem e marcadas pela esperança na ciência como conhecimento que solucionaria os problemas humanos. Diante de tal contexto, a prática psicológica apresenta-se respaldada por diversas teorias e sistemas psicológicos. Enquanto alguns buscavam desconhecer a singularidade do sujeito, ressaltando a realidade independente do sujeito apoiada no modelo científico de ciência, outros reconheciam e sublinhavam a especificidade do sujeito e desenvolveram um conhecimento que buscava a articulação entre processos cognitivos e outras dimensões das práticas sociais. No entanto, ao permanecerem no eixo da polaridade sujeito/sociedade e natureza tentavam anular a possibilidade de uma medida comum entre o mundo dos sujeitos e dos objetos. É essa impossibilidade de purificação entre humanos e natureza que é apontada, segundo Latour no seu livro Jamais fomos modernos, de 1994, pelas filosofias que vieram depois das consideradas modernas e que representam um momento de transição. Trata-se de momento norteado pela crença de que o sujeito falante é incomensurável ao objeto natural e a eficácia da técnica, necessitando uma expansão pelo território da hermenêutica. Tal compreensão norteia as reflexões dos diversos autores que compõem o presente livro. Partem da prática psicológica em instituição, campo inicial e privilegiado da constituição do Aconselhamento Psicológico, e vão descobrindo e (des)construindo esta prática, apontando para a necessidade de outras modalidades além da psicoterapia. Em tal percurso abdicam da necessidade de compartimentalização e cisão acerca do que é o homem, dirigindo-se para uma compreensão do ser humano ancorada na possibilidade de cuidado de si, partindo da atenção psicológica compreendida como intervenção clínica, socialmente contextualizada e engendrada a partir de um encontro intersubjetivo. Nesse contexto, um livro que ressalte e marque a relevância do Aconselhamento Psicológico como um campo fundamental, histórica e socialmente no Brasil e no contexto mundial, torna-se desejável e necessário. Firma-se por ele um comprometimento para a formação de profissionais preocupados com a seriedade e a importância da contextualização histórica, social e cultural de sua formação e para professores de graduação que busquem propiciar uma formação ancorada na tradição e rigor da Psicologia. A partir da tradição constitutiva do campo de Aconselhamento Psicológico, o presente livro apresenta a aproximação cuidadosa deste campo com a perspectiva fenomenológica existencial, apontando para a constituição de um novo olhar clínico investigativo, que busca interrogar ao próprio fenômeno o que necessita ser desvelado. Desse modo, a ação clinica, ao aproximar-se da condição humana apresentada por Heidegger, busca propiciar que o cliente torne-se narrador de si mesmo pela escuta atenta (atenção psicológica) do psicólogo, que cuida de exercer um dizer encarnado, afinado pelas interpelações do cliente gestadas numa trama de relações significativas constituídas pelo próprio mundo. A ação clínica assim compreendida rompe com o modo de contato construído numa concepção técnico/explicativa, constituindo-se numa disponibilidade para acompanhar o outro (cliente) em seu cuidar das suas possibilidades mais próprias, dispondo delas livremente e com responsabilidade. Nessa direção, envolve-se com um procedimento co-humano criativo, não apreensível por teorias que descendem do subjetivismo e do conceito cartesiano de mundo.
Do livro É nessa direção que os diversos autores desse livro empreendem suas reflexões transitando por aspectos teóricos, metodológicos e de pesquisa. A organização do livro segue esta estrutura temática: agrupa os capítulos de modo a facilitar uma compreensão do olhar fenomenológico existencial para a pratica psicológica, ampliando, também, a compreensão instituída pelo Aconselhamento Psicológico. Ao mesmo tempo, revela como o Aconselhamento Psicológico pode se aproximar desta perspectiva pela metodologia de investigação de psicólogos sobre a prática ou pela pesquisa interventiva refletindo a prática ou, ainda, pelas teorizações fundamentadas nessa prática. Ou seja, partindo sempre do questionamento da prática, todos (ou a maioria) dos trabalhos resultaram de teses de doutorado e dissertações de mestrado de 2000 a 2006, defendidas nos Programas de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade de São Paulo e da Universidade Católica de Pernambuco. Nesse sentido, o bloco “Teoria” é constituído por quatro capítulos que trabalham a historicidade, a contextualização e a amplitude do campo de Aconselhamento Psicológico. O texto de Maria Luiza Schmidt revela o elemento fronteiriço constituinte do campo de A.P. O texto de Henriette Morato discute cuidadosamente as implicações das reflexões entre compreensões de Rogers e Gendlin, autores fundamentais para A.P. O texto de Carmem Barreto ressalta as contribuições do pensamento heideggeriano, apontando para a ampliação do pensar a clínica psicológica via a fenomenologia hermenêutica. Por último, o texto de Marcus Túlio Caldas apresenta as contribuições do pensamento fenomenológico existencial para a compreensão da psicopatologia. No bloco “Pesquisa e Reflexão”, o capítulo de Gohara Yvette Yehia faz uma articulação entre o A. P. e o Psicodiagnóstico Colaborativo, ressaltando a possibilidade de interlocução entre essas práticas psicológicas. O texto de Virgínia Carneiro traz uma reflexão crítica sobre a articulação entre teoria e prática no contexto de formação do psicólogo clínico. Nessa mesma direção, os textos de André Nunes e Tatiana Braga revelam uma perspectiva de formação crítica via um laboratório universitário com projetos de extensão e a Atenção Psicológica como um estágio clínico de graduação. Já os textos de Heloisa Aun e Rodrigo Oliveira apresentam uma modalidade de prática no campo de A.P., conhecida como Plantão Psicológico, que se instituiu a partir de pesquisas interventivas demandadas, respectivamente, pelas instituições da FEBEM e da Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo. Ainda em textos complementares, porém diversos, os capítulos de Walter Cautella Jr. e Josélia Quintas trabalham a perspectiva de Plantão Psicológico a partir de pesquisas interventivas em instituições hospitalares de São Paulo e Recife. Por sua vez, o texto de Darlindo Lima contempla a dimensão da escuta como dispositivo de cuidado, nutrida por diversos contextos culturais. O último bloco “Metodologia” apresenta trabalhos de perspectivas teóricas variadas, mas cujo caminho de investigação e modo de colheita das experiências foi realizado a partir de uma escuta e de um modo fenomenológico existencial. Assim, o capítulo de Bárbara Cabral faz a ligação entre as reflexões sobre o Plantão Psicológico e as pesquisas desenvolvidas em instituições com programas de saúde pública, discorrendo sobre as possibilidades metodológicas de pesquisa nessa perspectiva. Também contemplando o questionamento da modalidade de Plantão Psicológico como abertura à experiência de si mesmo, Marina Halpern encaminha-se pela metodologia fenomenológica recorrendo ao contar histórias como esclarecimento da demanda de dizer de si. Nesse bloco ainda, Ana Santana apresenta a experiência de pacientes usuários de serviços de Saúde Mental, visando re-significar a prática clínica psicológica na unidade ambulatorial, enquanto Carlos Frederico Alves revela as experiências dos cuidadores que trabalham em serviços de saúde. O texto de Lucyanna Pereira discute a fala clínica em terapia e como essa fala pode ser acolhida em uma pesquisa fenomenológica existencial. Por outro lado, Carolina Bacchi e Wilma Henriques mantêm-se na perspectiva dos estágios clínicos de formação, iniciada por Lucyanna, porém discutindo não a atitude do aluno, mas o fenômeno de espelhamento e a supervisão clínica, respectiva e complementarmente. Por sua vez, acompanhando possibilidades metodológicas, os textos de Ana Frota, Elaine Dias, Célia Fonseca e Severino Souza trabalham e articulam, em diversas perspectivas e contextos, o complexo fenômeno da adolescência em nossa sociedade. Já o texto de Marina Mendes apresenta uma elaborada discussão sobre a prática do psicólogo em instituição jurídica sob o olhar fenomenológico existencial. Suely Santos percorre a experiência de ser ex-esposa, vinculando a perspectiva fenomenológica existencial e a sociodramática enquanto modalidade de pratica clínica. Por fim, o texto de Patrícia Wallerstein apresenta uma necessária reflexão sobre a Gestalt-Tearpia por suas rupturas e continuidades, propiciando frutíferas idéias sobre movimentos aproximados ao campo de A.P., através de revisões críticas metodologicamente encaminhadas.
Da proposta Contemplando temáticas e leituras atuais da prática psicológica, o presente trabalho procura abrir outras perspectivas para reflexões pertinentes ao fazer da Psicologia compromissada com o humano e seus desafios existenciais. Parafraseando Hannah Arendt (Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987), é preciso "estar disposto a arriscar a vida", pois "somente podemos ter acesso ao mundo público, que constitui o espaço propriamente político, se nos afastarmos de nossa existência privada” (p. 73-4). É esta a proposta deste livro. Dando voz àquilo que exercemos como trabalho, a prática psicológica, procuramos abrir espaços que, ao mesmo tempo, contemplem uma singularidade e uma pluralidade de olhares no coletivo de nossa pertença: o campo do Aconselhamento Psicológico como lugar legitimamente próprio de um fazer profissional ético e político. Afinal, o mundo atual pode ser compreendido como uma "administração doméstica coletiva", um "conjunto de famílias economicamente organizadas", uma "família sobre-humana" (ARENDT, 1987, p.38). Contudo, este trabalho contempla uma dimensão para além de apenas essa familiaridade. Para Arendt (1987, p.45-6), “Na medida em que se constroem corpos políticos sobre a família e são compreendidos como uma imagem dela, considera-se que os parentescos podem, por um lado, unir os mais diversos e, pelo outro, permitir que figuras semelhantes a indivíduos distingam-se as umas das outras [...] Em ambos os casos, a ruína da política resulta do desenvolvimento de corpos políticos a partir da família, a que nossa vida está unida” Para não agirmos na direção antipolítica acima por Arendt apontada, recorremos à multiplicidade mesma da Psicologia em suas teorias e técnicas para sugerir outra possibilidade de compreensão do fenômeno humano: a ótica fenomenológica existencial. Por ela é possível ocorrerem reflexões que percorrem encontros com o estrangeiro que somos em nossa própria cultura e em nossa humanidade de homens entre homens. Preocupados com o desalojamento da prática psicológica em tempos sombrios do humano, este livro dedica-se a todos os psicólogos entre o passado e o futuro, para criarem ações pertinentes em seu fazer. Abandonar seguranças e arriscar-se à imprevisibilidade foi o nosso desafio que aqui deixamos testemunhado. Porém, esperamos estar apresentando possibilidades para agir em Psicologia como início para experienciar outras formas no ofício de psicólogos.
Aconselhamento Psicológico na perspectiva Fenomenológica Existencial: uma introdução. Coordenação Henriette T. P. Morato; Carmem L. B. T. Barreto; André P. Nunes; editores da série Edwiges F. M. Silvares, Francisco Assumpção Júnior e Léia Priszkulnik. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2009. il (Fundamentos de Psicologia)
SUMÁRIO
Teoria
I. O nome, a taxonomia e o campo do aconselhamento psicológico
Maria Luisa Sandoval Schimdt.
II. Atenção psicológica e aprendizagem significativa
Henriette Tognetti Penha Morato.
III. A ação clínica e a perspectiva fenomenológica existencial
XVI. A experiência do usuário: via de re-significação do cuidado em ambulatório público de saúde mental
Ana Maria De Santana.
XVII. Saúde e sofrimento do trabalhador: experiências e olhares acerca do (des) cuidado de cuidadores/profissionais de saúde mental no contexto do SUS numa perspectiva fenomenológica existencial
Carlos Frederico De Oliveira Alves; Henriette Tognetti Penha Morato; Marcus Tulio Caldas.
XVIII. Caminhos e descaminhos da fala na clínica psicológica: uma perspectiva fenomenológica existencial
Lucyanna de Farias Fagundes Pereira; Marcus Túlio Caldas.
XIX. O poder encantador e transformador dos espelhos: revelando o espelhamento em grupos de supervisão
Carolina Bacchi; Henriette Tognetti Penha Morato.
XX. Supervisão: lugar de fronteiras... Ato clínico em ação
XXI. Uma compreensão fenomenológica da adolescência a partir de narrativas: Winnicott e a re-instalação do si-mesmo
Ana Maria Monte Coelho Frota; Henriette Tognetti Penha Morato.
XXII. Adolescência: reflexões atualizadas
Elaine T. Dal Mas Dias.
XXIII. Violência juvenil e subjetividade: uma reflexão acerca da temática
Célia Maria Souto Maior De Souza Fonseca; Henriette Tognetti Penha Morato; Albenise De Oliveira Lima.
XXIV. Adolescentes em situação de acolhimento institucional: um estudo sobre abandono
Severino Ramos Lima De Souza; Henriette Tognetti Penha Morato; Cristina Maria Souza Brito.
XXV. Vindo e indo
Maria de Ulhôa Flosi Mendes.
XXVI. Uma intervenção pela perspectiva fenomenológica existencial e sociopsicodramática, como possibilidade de modalidade prática em psicologia clínica
Suely Emilia De Barros Santos; Henriette Tognetti Penha Morato.